Extrema-unção

(Angelo/Baitelo/Faleiros)

Quando você passar

Quando eu voltar a respirar

Melhor seria me perder

Não queira estar no seu lugar

 

Quando você passar

Eu quero estar no pelotão

Pode pedir a extrema-unção 

Não sou Jesus pra perdoar

 

Quando você passar

E a gente desemudecer

Melhor seria se exilar

 Não vai ter onde se esconder

 

Quando você passar

Vou presidir a comissão

 Te apresentar ao talião

Não sou tão bom pra tolerar

 

[eu tenho três alternativas para o meu futuro.

Estar preso, ser morto ou a vitória]

[pode ter certeza…]

 

Preso

Morto

Peso

Morto 

Preso

Morto

Oooh

 

Preso

Morto

Peso

Morto

Preso

Morto

Tanto faz

 

Quando você passar

De volta o caos habitual

O inútil luto, o mal banal

Seiscentos mil pra debitar

 

Quando eu puder deitar

Com a realidade outra vez

Peça aos distopicardeais

Que orem muito por você

 

 

Vocês, que fizeram da morte seu playground

Que disseram não ser coveiros, mas mesmo assim

Enterraram cinco Maracanãs lotados

Vocês, imperadores da demência, desídia e trapaça

Que comemoraram suicídio

Que roubaram dinheiro da vacina que não compraram

(porque, afinal, diziam vocês, acabou a mamata)

Vocês, que fizeram cosplay de Goebbels,

Que acham que nazismo é liberdade de expressão,

Que defendem o AI-5, desde que seja para os outros.

Que odeiam o termo “povos indígenas”,

mas odeiam mais ainda os povos indígenas

Vocês, que mandaram pescadores do Nordeste engolir hidrocarbonetos

Porque “o peixe é um animal inteligente”

Hidrocarbonetos tóxicos, agrotóxicos, memes tóxicos

Despejados sobre 210 milhões de pessoas como se não houvesse amanhã

Porque, no que dependesse de vocês, não haveria mesmo

Vocês, que libertaram os homens-das-casernas

E liberaram o fim de nossas cavernas

E o fim de nossas florestas

E o fim de nosso orgulho

Vocês, que financiaram e apoiaram e apoiam a barbárie

Porque o que importa são as reformas,

Que prometeram tirar direitos e dar empregos

e nos deixaram sem nenhum dos dois.

Vocês, que nada fizeram para parar o morticínio

porque “as instituições estão funcionando”

Não terão, jamais terão

O nosso perdão